quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Meu artigo "Verdades e mentiras do Tango de Nancy" publicado...

RINALDO DE FERNANDES LANÇA NOVA ANTOLOGIA DE ENSAIOS SOBRE CHICO BUARQUE



ESCRITOR LANÇA, PELA EDITORA LEYA, NOVA ANTOLOGIA COM GRANDES ENSAÍSTAS BRASILEIROS E ESTRANGEIROS, JÁ ANTECIPANDO AS HOMENAGENS AOS 70 ANOS, EM 2014, DO GRANDE COMPOSITOR

LANÇAMENTO NACIONAL DO LIVRO SERÁ PRÓXIMO SÁBADO, DIA 04/10, ÀS 20h40, NA 9ª BIENAL DO LIVRO DE PERNAMBUCO


Depois de três anos de produção do livro, chega às livrarias do país, pela editora LeYa, a antologia "CHICO BUARQUE: o poeta das mulheres, dos desvalidos e dos perseguidos - ensaios sobre a mulher, o pobre e a repressão militar nas canções de Chico", organizada por Rinaldo de Fernandes, com uma introdução e 24 ensaios (que analisam as mais significativas letras de Chico) escritos por grandes nomes, das mais importantes universidades brasileiras. Um livro para os fãs, para os intelectuais, para os professores, para os estudantes - enfim, um livro para quem gosta de um grande artista e, sobretudo, para quem aprecia ensaios muito bem escritos. Lançamento nacional do livro, com a presença do organizador, será no próximo sábado, dia 05/10,  às 20h40, na 9ª Bienal Internacional do Livro de Pernambuco
Diz o organizador do volume no texto de apresentação:
"A presente coletânea tem uma proposta um tanto diferente do 'Chico Buarque do Brasil', que tratou da ficção, do teatro e de um grupo de canções de Chico. Para esta coletânea convidei um conjunto de ensaístas para produzirem textos analisando as mais significativas letras do compositor. Os ensaístas aqui são todos doutores ligados a grandes universidades brasileiras (com exceção de Luca Bacchini, da Università di Roma “La Sapienza”, e de Charles A. Perrone, da Universidade da Flórida, e ainda do jornalista Daniel Piza, já falecido). Pesquisadores da USP, UNICAMP, UFRJ, UnB, UFRGS, UFPR, UFBA, UFPE, UFPB, UFC, UEFS e UEG. Além de Anazildo Vasconcelos da Silva, Adélia Bezerra de Meneses, Luca Bacchini, Charles A. Perrone e Daniel Piza [...], integram a coletânea Aleilton Fonseca, Cleusa Rios Pinheiro Passos, Cristhiano Aguiar, Evelina Hoisel, Igor Fagundes, Lígia Guimarães Telles, Luciano Rosa, Luís Augusto Fischer, Luiz Antonio Mousinho, Luzilá Gonçalves Ferreira, Nelson Barros da Costa, Pedro Lyra, Ravel Giordano Paz, Regina Dalcastagnè, Sônia L. Ramalho de Farias, Sônia Maria van Dijck Lima, Sylvia Cyntrão, Tércia Montenegro Lemos e Waltencir Alves de Oliveira. São, ao todo, 24 ensaístas que produziram análises das letras de Chico priorizando três segmentos temáticos – a mulher, os desvalidos e a repressão militar. Os ensaios, por solicitação minha, foram feitos em linguagem mais acessível ao público não especializado – mas sem maiores facilidades e com o rigor que o gênero exige. E o resultado me pareceu bastante satisfatório."
Já a quarta capa da coletânea, entre outras coisas, afirma:
"A obra de Chico Buarque é tão rica que as ideias sobre ela parecem não se esgotar. Sua música e sua literatura impressionam estudiosos e leigos, surpreendendo a todos com interpretações diferentes das que estamos acostumados. Em 'Chico Buarque: o poeta das mulheres, dos desvalidos e dos perseguidos', o leitor encontra novas visões para aspectos supostamente conhecidos da obra do compositor. Os vinte e quatro ensaios que compõem o livro passeiam pelas músicas e pelos personagens mais marcantes, como a figura feminina em 'Angélica' e 'Benvinda' e os desamparados do país nas letras de 'Construção' e 'Pedro Pedreiro'. A poesia buarqueana é analisada com esmero acadêmico, mas também com o olhar encantado por uma obra tão envolvente. Os ensaios vão descortinando a obra do poeta e conduzindo o leitor pelos bastidores de significados das canções, tão intencionalmente criadas e tão despretensiosamente cantadas."
Rinaldo de Fernandes, que é doutor em Letras pela Unicamp, professor de literatura da UFPB e também ensaísta, contista e romancista (foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2009 com "Rita no Pomar"), já tinha lançado em 2004, pela editora Garamond (RJ), a antologia "Chico Buarque do Brasil: textos sobre as canções, o teatro e a ficção de um artista brasileiro", de grande sucesso editorial e hoje referência nos estudos buarqueanos. Entre antologias de ensaios e de contos, esta é a 8ª que ele organiza. Outros lançamentos da coletânea estão previstos, por enquanto, para João Pessoa, Fortaleza, Brasília, Salvador e Campina Grande.

Assessoria de Imprensa: Linaldo Guedes
http://rinaldofernandes.blog.uol.com.br/arch2013-09-29_2013-10-05.html#2013_09-29_22_03_03-4103212-0

Ouça o Tango de Nancy (Edu Lobo / Chico Buarque) na voz de Lucinha Lins
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=m88iyjjgkfc
http://www.youtube.com/watch?v=00u6pzncs2A 

Tango de Nancy

Compositor: Edu Lobo / Chico Buarque
Tom: D#
  
Cm7                                 Dm7(b5) G7 Gm7(11)
Quem sou eu para falar de amor
                                    C7            Fm7  Fm7/Eb Dm7(b5)
Se o amor me consumiu até a espinha
                                G7  Cm7              Cm7/Bb           Am7(b5)
Dos meus beijos que falar, dos desejos de queimar
                                     D7                                 G7(4) G7
E dos beijos que apagaram os desejos que eu tinha

Cm7                                 Dm7(b5) G7 Gm7(11)
Quem sou eu para falar de amor
                                    C7                Fm7  Fm7/Eb Dm7(b5)
Se de tanto me entregar nunca fui minha
                   G7           Cm7           Cm7/Bb       Am7(b5)
O amor jamais foi meu, o amor me conheceu
                                   Abm6          G7(b13) Cm7
Se esfregou na minha vida e me deixou assim

Ab/Bb                          Bb7                        Eb7M
Homens, eu nem fiz a soma de quantos rolaram no meu camarim
Am7(b5)                    D7                          G7(4) G7
Bocas chegavam a Roma passando por mim
Fm7                   G7                          Cm7                                   Eb7
Ela de braços abertos, fazendo promessas, meus deuses, enfim!
Dm7(b5)               G7                            Cm7 C7(4) C7
Eles gozando depressa e cheirando a gim
Fm7                       G7                            Cm7                            Eb7
Eles querendo na hora, por dentro, por fora, por cima e por trás
Dm7(b5)                       G7                          Cm7
Juro por Deus, de pés juntos que nunca mais

A LINGUAGEM DO RACISMO




Há uma tendência a se menosprezar o racismo brasileiro atribuindo-o a fatores sociais  e econômicos. De fato, discriminação racial e discriminação social estão intimamente relacionadas no Brasil. No entanto, um não se reduz à outra e cremos que infelizmente se o racismo não for combatido energicamente ele prevalecerá mesmo após a superação dos problemas sociais. Pensamos que uma das formas desse combate é o conhecimento dos mecanismos que operam o racismo. Mas se a nível macroscópico tais mecanismos não têm visibilidade ou talvez não existam (é incontestável que não há uma política racista no Brasil), pode-se captá-los a nível microssocial investigando aquilo que materializa nossos mais íntimos pensamentos e sentimentos, que ao tentar ocultá-los os delata: a linguagem. Os modernos estudos da Teoria da Enunciação, da Pragmática e da Análise do Discurso já nos permitem compreender um pouco as estratégias linguísticas do racismo. Assim é que tentaremos examinar superficialmente aqui alguns mecanismos linguísticos utilizados pela ideologia racista para atingir seu fim: ressaltar a diferença para desvalorizá-la. Nosso objetivo é lançar uma proposta: a de apanhar o racismo pela palavra no cotidiano e conhecê-lo enquanto prática linguística para melhor combatê-lo.
Alguns modos da enunciação racista
O modo mais simples da enunciação racista é chamar a atenção do ouvinte para o traço racial[1], isto é, ressaltar pela palavra em tom negativo um aspecto fenotípico de um indivíduo. Assim, o simples ato de chamar alguém de negro de modo entonacionalmente hostil ou jocoso[2] se enquadra ao nosso ver no quadro do racismo enunciativo.
Os insultos que destacam um traço físico de um indivíduo têm um poder argumentativo devastador. Se alguém é chamado de burro, pode responder simplesmente “burro é você” ou pode ainda contestar o valor de verdade da acusação replicando “eu não sou burro porque...” e reunir argumentos que desarmem o interlocutor. Agora, se alguém é negro e é chamado de negro de uma forma depreciativa, não pode responder “negro é você”, por motivos óbvios. A saída “eu não sou negro porque...” é ineficaz porque aspectos objetivos (mesmo que não tão evidentes) sustentam o poder de fogo do adversário e dizendo que não é negro a vítima está implicitamente dizendo que ser negro é realmente ser inferior. Portanto, diferentemente do insulto que imputa a alguém uma característica subjetiva, o que se apoia em características objetivas tem menor e mais complexa possibilidade de defesa argumentativa.
Uma delas seria revidar chamando pejorativamente o outro de branco reunindo argumentos que depreciem suas características físicas. Ou seja, racismo contra racismo. Acontece que o não branco não é sujeito hegemônico economicamente na sociedade e, por isso, está na estrutura linguística que forma a ideologia dos indivíduos um sistema que valoriza o campo semântico da palavra “branco” (cf. “Ideias claras”, “arma branca” [menos letal], etc.) e atribui valor negativo a campos semânticos de outras como “negro”, “judeu” e “índio” (cf. expressões como “a coisa tá preta”, “judiar” e “programa de índio”, respectivamente). Portanto, por já estar impregnada historicamente de valor positivo, a palavra “branco” não funciona pejorativamente com a perfeição que a palavra “negro” funciona.
Outro mecanismo linguístico do racismo bastante usado é o da associação sintagmática socialmente motivada entre a palavra “negro” (“judeu” ou “índio”) e outra de significado negativo[3]. Há casos famosos como aquele em que o então governador Brizola teria chamado o então deputado Agnaldo Timóteo de “negro safado”. O jornal Folha de São Paulo de 13/09/96 publicou uma pequena matéria em que uma costureira foi chamada de “negra ladrona” pela funcionária de uma loja que a acusava de estar tentando roubar uma mercadoria. Nesses casos a expressão é usada em contextos nos quais se superpõem discriminação social e racial.
Embora estejamos tomando como exemplo aqui minorias(?) marginalizadas, é importante frisar que  os enunciados racistas apresentam lugares de referência comutável. Isto significa que qualquer tipo racial pode ser vítima de determinado modelo enunciativo racista. É famoso o caso da composição “Loira Burra” do rapper Gabriel O Pensador.
O que este modelo enunciativo opera é uma sutil transferência de atributos do primeiro termo para o segundo termo[4]. O racismo se dá quando o primeiro termo destaca uma característica étnica do  alocutário. Ao enunciar “loira burra”, O Pensador aparentemente está se referindo a uma mulher fútil, vulgar, inculta (atributos sintetizados pelo adjetivo “burra”) que, por acaso, é loira. Mas, a partir do momento em que o tal adjetivo é associado a um traço étnico, a expressão possibilita uma leitura generalizante: “se é loira é burra;  se é burra é loira”.
Finalizando este item devemos mencionar o racismo manifestado pelas narrativas anedóticas em que ao negro é atribuído o papel de amante bem dotado ou de seviciador homossexual ativo (papel muitas vezes também desempenhado pelos gorilas). Estas anedotas promovem a cristalização de termos como “negão”, que acabam se generalizando e designando o “amante”, seja ele negro ou branco. Outras, como reminiscências dos tempos da escravidão, apresentam a criança negra (o “neguim” ou a “neguinha”) como serviçais a quem se manda comprar cigarros na esquina ou fazer pequenos serviços. São apresentadas como espertas (no mau sentido) e prontas a aprontar traquinagens (geralmente desonestas). Em geral, nestas anedotas há também fartura de comparações entre os aspectos físicos do negro com coisas tais como fita isolante, rolo de fumo, carvão, etc.
Mas o que importa neste caso não são as anedotas consideradas em si mesmas, mas suas estruturas. As estruturas são tais que as tornam aplicáveis a qualquer tipo racial, étnico ou cultural (são famosas as piadas de português, de japonês, de judeu, etc.). O gênero constituído (narrativa anedótica) assume aí um caráter estratégico, pois através dele a postura racista pode se apoiar no desenvolvimento de uma cena enunciativa que a protege da acusação de racismo: o locutor (quem fala - ou quem conta) constitui enunciadores fazendo parecer para quem ouve que não é responsável pelo que  se está dizendo ou fazendo na anedota. Assim, quem é racista é o personagem e não quem conta a anedota. O narrador, aliás, transfere para o personagem a liberdade que talvez tanto anseie: a liberdade de dizer-se racista e de praticar o racismo sem vergonha. Além disso, por ser uma anedota, o efeito duro do racismo é neutralizado ou amenizado pelo riso e pela galhofa.
O caso Tiririca
Nos anos 90, Francisco Everardo Oliveira Silva, o palhaço Tiririca, teve a letra da música “Veja o cabelo dela” proibida pela Procuradoria de Justiça do Rio de Janeiro.  O que ficou flagrante na música de Tiririca foi o ato de chamar a atenção do ouvinte para o traço racial (“Veja os cabelos dela!”) e em seguida associá-lo a um objeto na intenção de criar um efeito de sentido que provoca o riso (“parece bombril de arear panela”).
Infelizmente não podemos fugir à contradição de ter que mais uma vez expor os versos proibidos da letra:
Veja, veja, veja os cabelos dela!
Parece bombril de arear panela
Quando ela passa, me chama atenção
Mas seus cabelos não têm jeito, não
A sua catinga quase me desmaiou
Olha, eu não aguento o seu grande fedor
Veja, veja os cabelos dela!
Parece bombril de arear panela
Eu já mandei ela se lavar
Mas ela teimou e não quis me escutar
Essa nega fede! Fede de lascar
Bicha fedorenta, fede mais que um gambá
Veja, veja, veja os cabelos dela
Como é que é? A galera toda aí
Com as mãozinhas pra cima
Veja, veja, os cabelos dela
Bonito, bonito!
Aí, morena, você, garotona
Veja, veja, veja os cabelos dela”     

De fato, no decorrer de toda a canção, o enunciador põe sob execração pública uma característica de uma mulher, na medida em que convida o ouvinte a observar os seus cabelos e a compará-los com o bombril. Como essa mulher não é a única que tem essa característica, é na verdade um traço étnico que está sendo ridicularizado.
A ridicularização pode ser evidenciada se observarmos que os dois primeiros versos estão atravessados pelos seguintes enunciados não-ditos:
a) “O cabelo dela não é igual ao nosso (de quem fala e de quem ouve)”;
b) “Cabelo deve ser fino e liso como o nosso”;
c) “Não é engraçado, cabelo se parecer com bombril?”
Recursos como esses são muito usados principalmente entre crianças e adolescentes e podem funcionar para qualquer traço racial. Experimente-se substituir “cabelo” por “nariz”, “cor da pele” ou “olhos” e associar o elemento substituto com objetos semelhantes e se terá o mesmo efeito de sentido.
A composição também manifesta outro tipo de ação linguística racista de caráter mais sutil. Os demais trechos são marcados pela insistência em salientar o mau cheiro de uma negra. A reiteração frequente (“catinga”, “fedor”, “fede”, “fedorenta”) e a intensificação (“...quase me desmaiou”, “eu não agüento...”, “... de lascar”, “...mais do que gambá”) parecem pretender instituir a transformação de algo factual (estar mal cheiroso) em um estado (ser mal cheiroso). É como se subliminarmente fosse dito que são atributos da “nega” o cabelo de bombril e o fedor.
Ironicamente essas sugestões sutis de relacionar cor e mau cheiro operam-se em função de uma espécie de autocensura que inibe uma vontade talvez inconsciente de referir-se depreciativamente à cor da pele.
Por fim, a letra faz eco às vozes de conhecidas expressões populares racistas que atribuem aos negros a sujeira (“negro quando não suja na entrada, suja na saída”) e o mau cheiro (“catinga de nego”).
Conclusão
Muito se tem falado do “racismo velado” do brasileiro, mas pouco se tem pesquisado sobre a dimensão linguística desse racismo. Visto que acreditamos que linguagem acompanha intimamente nossos mínimos atos, pensamos que toda consideração sobre esse racismo que esquecê-la resultará incompleta e, consequentemente, fraca quanto ao seu poder de intervenção na realidade.
Nelson Barros da Costa – em 09/11/2000


[1] Também a origem nacional (“japonês”) ou regional (“baiano”) pode ser salientada.
[2] A descrição dos padrões entonacionais e sua relação com os atos de fala em português, cremos nós, ainda está por ser feita.
[3] A associação com substantivos adjetivados referentes a objetos ou animais também pode ser utilizada (cf. “negro carvão”, “loira burra”, etc.). Em muitos casos, a referência explícita ao traço étnico desaparece ficando implicitada na enunciação apenas do segundo termo (cf. o apelido do falecido humorista Antônio Carlos Gonçalves: “Mussum”).
[4] A ambiguidade sintática dos dois termos em questão (cada um deles é adjetivo e substantivo a um só tempo) reforça essa transferência