segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

"Onde está o menino que fui, segue dentro de mim ou se foi? Sabe que não o quis nunca e que tampouco me queria? Por que andamos tanto tempo crescendo para separar-nos? Por que não morremos os dois quando minha infância morreu?" (Pablo Neruda)



Brinquei o máximo que pude na minha infância. O espaço é pouco para elencar todas as brincadeiras. O que me vem à memória agora: a arraia (pipa), o futebol de botão, os carrinhos de lata (cheia de areia), carrinhos feitos de lata, jogo de pedras, bola (pelada de rua), 31 de janeiro, pega-pega, carimbo, pega vareta, triângulo, kart (carrinho de rolimã), currupio, peão, bila (bola de gude), estátua, advinha, dicas, batalha naval, esconde-esconde, baladeira (estilingue), lança-jeriquiti, cabeça de jerimum (com vela dentro), melão-caetano, berlinda, etc, etc, tudo artesanal, tudo acústico, 3D natural, nada eletrônico ou elétrico. Eu brincava com esmero e capricho, embora não tenha sido campeão em quase nada. Para uma boa brincadeira valia arrancar botões dos vestidos da minha mãe ou dos paletós de meu pai para usar no jogo de botões; valia pelar o coqueiro do quintal atrás dos melhores palitos para fazer arraias e roubar algodão da farmácia caseira para confeccionar o rabo; valia cortar os dedos para passar cerol nas linhas das arraias; esfolar pés e pernas para jogar um bom futebol de rua; subir em postes e em muros para pegar as arraias que “bolavam”; se resfriar para jogar de triângulo (as hastes se enfiavam melhor no chão molhado). Quando me recordo desse tempo fico perplexo quando penso na seriedade e requinte com que encarávamos algumas brincadeiras. O caso do futebol de botão era bem exemplar. O prazer dessa brincadeira era na verdade menos em jogar do que em preparar e exibir o time. Gastávamos horas lixando e polindo com vela e graxa de sapato um a um dos botões do time. Depois eles eram bem acondicionados em uma flanela perfumada com talco e inseridos numa caixinha em cuja tampa estava estampado o seu brasão. Cada botão tinha também, colado encima dele, um papelzinho quadrado que era recortado e numerado. Competíamos não apenas no campo, mas para ver quem tinha o time mais bem cuidado, com os botões mais preciosos (os de osso eram os mais apreciados e disputados. Não raro trocávamos ou comercializávamos os botões). As palhetas eram adaptadas de fichas coloridas de jogos de adultos (nessa época, era também um comprovante de pagamento das passagens de ônibus de Fortaleza, mas não me perguntem como as conseguíamos). Elas eram lixadas nas extremidades para não arranhar os botões. A trave era feita de palito e de filó recortado da parte do mosquiteiro que ficava embaixo do colchão (minha mãe nunca percebeu!). Mas a brincadeira que mais me dava prazer e que consumia a maior parte do meu dia era singela, brincada em casa com o meu irmão mais novo, longe de meus colegas. A brincadeira consistia em construir cidades no quintal e movimentar o seu cotidiano. Na verdade, as “casas” tinham apenas duas dimensões como se fossem desenhadas no chão com pedaços de paus. Seus habitantes eram feitos de lata e pilhas elétricas usadas. A ferrugem desse material representava sua morte. Quando “morriam”, substituíamos o cidadão por outro, que migravam não sei daonde para a cidade.
Arranjávamos uma personalidade pra cada um. E representávamos o papel deles movimentando-os pela cidade. Havia automóveis (que tanto podiam ser de lata quanto de plástico, industrializados – não tínhamos preconceitos), onde colocávamos os cidadãos e os fazíamos se deslocar pela cidade. As casas tinham móveis. Lembro bem que os sofás eram as capas do pendão da bananeira, que quando caiam se enrolavam de um jeito que ficavam parecidos com um sofá bem confortável. Mas esse sofá era privilégio das pilhas, porque as latas eram grandes demais. Mas sempre arranjávamos umas caixas pra elas que serviam de sofá. Os aviões eram caixas de ovos. Também privilégio das pilhas, mas só porque eram pequenas. Como vocês podem ver, nessa cidade as pessoas pequenas é que tinham vez. Mas nem tudo era tranquilidade nessas cidades. Pra animar um pouco as brincadas, fazíamos as cidades guerrear. Às vezes essas caixas de ovos eram aviões de guerra. E nos divertíamos muito quando uma delas era atingidas por um míssil (um palito de fósforo aceso – não repitam isso em casa!). O isopor se derretia com as pilhas dentro e o espetáculo causava um grande frisson... Esse país no nosso quintal também era, de vez em quando, arrasado por furacões, que aconteciam toda vez que eu e meu irmão brigávamos. Destruíamos tudo e, quando reatávamos, reconstruíamos tudo de novo. A brincadeira acabou de vez quando uns garotos, de cima do muro do vizinho, nos espiaram brincar e fizeram a maior zombaria. Era a sociedade me cobrando o fim da infância, eu que já tinha 13 anos. Foi-se embora, e eu ainda era criança...

Quem sou eu?

     Não sei exatamente...
O síndico do prédio onde moro diz que eu sou um condômino; mas para os que moram aqui, sou um vizinho.
Quando saio de casa, uns dizem que sou um pedestre, embora outros digam que sou um transeunte; se tomo um ônibus ou uma van, sou um passageiro; se entro numa loja, sou um cliente; aliás, sou cliente em muitos lugares: bancos, agências de correio, oficinas mecânicas, restaurantes, lanchonetes etc.
Os políticos do Brasil dizem que sou um cidadão brasileiro; mas em época de eleição, sou um eleitor.
Já quando entro num consultório médico, me torno um paciente; e tomara que eu não adoeça ou sofra algum acidente ou assalto para não me tornar uma vítima, um interno de um hospital, um paciente cirúrgico, ou, pior, um defunto!
No trabalho, sou um colega para uns, professor para outros e para certas pessoas sou, além de professor, orientador. E para outras tantas, em um número cada vez aumentando a cada ano, um ex-orientador e um ex-professor. Em reuniões, dizem que sou um “membro do colegiado”; mas fico sonhando em ir pra casa e, depois de momentaneamente me tornar motorista, morador do 888, passageiro de elevador, um morador do 803, passageiro de elevador e motorista de novo, enfim me tornar um anônimo em uma platéia, um espectador. Ou mesmo simplesmente ficar em casa e ser um telespectador.

E as férias, hein, quando chegam: torno-me turista, banhista, hóspede...!
Com a minha família tudo muda. Pra minha mãe, sou antes de tudo seu filho; mas pra minha filha, sou um pai. Pros filhos de minha mãe sou irmão. E pros maridos e mulheres deles, sou cunhado. E tem mais: pros filhos deles, sou um tio, e pros filhos dos filhos deles, sou tio-avô. Pode?!
Pra minha ex-mulher, sou ex-marido, e pra várias mulheres sou ex-namorado ou ex-paquera. Pra algumas pessoas, infelizmente, sou ex-amigo, talvez inimigo. Pra elas devo ser tanta coisa ruim que você nem imagina! Ainda bem que para um número bem maior, sou amigo ou, pelo menos, um cara legal. Se bem que, para um número ainda maior, sou um mero conhecido. Elas não sabem exatamente o que sou, mas imaginam que eu sou uma porção de coisas... E para bilhões de pessoas, não passo de um (ilustre) desconhecido.
Bom, mas agora mesmo, sou um internauta, um usuário, um blogueiro...